Durante muito tempo, ingênuos, crentes de que caminhávamos em direção ao progresso, pensamos as coisas todas em termos ideais. O progresso, que nos levaria ao futuro, garantia um bem-estar sem precedentes na história do homem. Um lugar/tempo perfeito, mais que higienizado, asséptico, seguro, confortável, com pouco trabalho a ser feito pelos humanos (as máquinas o fariam), bonito e provavelmente com trilha sonora muito agradável.

As coisas ideais... pensadas não só para responderem às demandas humanas, mas para se comportarem de forma impecável neste espaço/tempo futuro...

Enquanto organizávamos as coisas do mundo ideal de forma ideal, gerávamos uma quantidade de matérias, funções, formas, cores, padrões e tipologias impensável. Como o progresso é um percurso, e não um ponto de chegada como imaginávamos enquanto gritávamos “pra frente, Brasil, Brasil”, precisávamos trocar, a princípio, os rádios por televisões e logo uma televisão por outra, de dez em dez anos, seguindo num ritmo crescente, que ainda nos mantém prisioneiros, sempre amanhã mais que ontem. Carros, pisos, casas, enfim, tudo, num circuito infindável e de rapidez crescente, exigia substituição para nos levar direto ao dito futuro.

Não percebemos, até pouco tempo, que tanto a terra revolvida na extração de matéria quanto os processos usados na fabricação do mundo ideal traziam danos sérios e que os objetos ideais obsoletados, em favor de novos padrões ideais, transformaram, de forma indelével, o planeta que nos abriga.

O mundo recebeu com susto a notícia que não queríamos ouvir. O presente cobra o preço do futuro que nunca chegou e que pode nunca chegar ou pior: pode chegar da pior forma. Se não pararmos de pensar em termos ideais e começarmos a atuar em termos possíveis - imediatamente - nosso futuro estará comprometido.

A notícia, por outro lado, nos dá conta de que uma parte imensa da população mundial já se comporta como todos nós nos comportamos quando estamos num acampamento. Quem já acampou (ou morou numa república de estudantes) sabe que o processo impera e que a idéia do "para sempre" desaparece, sendo o "possível" a medida ideal.

A criatividade atribui valor a cada pedaço de barbante. O descompromisso com a perenidade traz de brinde uma estética, a princípio muito duvidosa, mas que, analisada amiúde, é recheada de elementos culturais significativos. Resultante da necessidade somada à possibilidade se revela uma estética honesta.

Pois bem: tal estética honesta, resultante da combinação simples do necessário com o possível, atende à demanda de milhões de pessoas que vivem nas periferias das cidades, das crenças e dos sistemas (porque o progresso e o futuro ideal sempre foram uma balela mesmo e nem todos acreditaram ou puderam participar do sonho). Começa a ser adotada e apreciada, estudada, praticada e considerada por muitos como plausível.

Como subproduto, os adeptos descobrem que não precisam dedicar infindáveis horas de trabalho para comprar objetos e que podem, ao invés disso, dedicar algum tempo construindo ou comprando a baixo custo, e com o tempo excedente fazer o que fazem os campistas (ou estudantes em suas casas): tomar banho de mar ou dançar. Enfim, empregar o tempo no que ele merece ser empregado - na vida.


Metodologia

Diferentemente das metodologias clássicas, bem desenhadas, com passos definidos e em condições de medir resultados e avaliar desempenhos à construção a que nos referimos, que tende ao apelo da necessidade e usa a possibilidade como meio, admite constantemente a falência, respeita os limites, avalia com astúcia e emprega como recurso o que estiver à mão, seja matéria, seja conhecimento, seja referencial cultural.

Dois parâmetros pouco claros guiam o processo metodológico: bom senso e intuição. Difíceis, imprecisos e imensuráveis beiram o intangível, exigindo atenção  ao entorno material e imaterial:
• recursos e técnicas,
• conhecimento e reconhecimento dos próprios talentos e também das próprias limitações,
• conhecimento dos talentos e limitações dos outros envolvidos e possíveis colaboradores,
• pesquisa atenta a novos conhecimentos pertinentes,
• admitir o absurdo - por vezes pode ser apenas admitir o inédito batendo à  porta,
• pensar no corpo real se relacionando com a coisa real, em detrimento do corpo ideal do futuro mais que perfeito,
• considerar que as coisas deverão ser desfeitas em algum momento,
• considerar as conseqüências de qualquer processo aplicado,
• reconhecer a simplicidade como um valor, seja no processo, nos resultados ou na estética,
• pensar no outro, o que vai usar a coisa,
• considerar valores como solidariedade, o contato e o afeto como integrantes do método.

Iniciar-se no exercício desta metodologia é adentrar um campo novo, diferente e que envolve riscos.

 
 
Celaine Aparecida Refosco - Artista plástica
Desenha, pinta e borda. Recentemente, com um grupo de amigos, inventou o Instituto de Estudos em Arquitetura, Moda e Design - Orbitato -, em Santa Catarina, do qual é diretora
www.orbitato.com.br
 
     
     
 


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