Outro dia imaginei uma piada. Fraquíssima, já advirto, porque não sou lá um bom criador de piadas. Mas seria assim: dois caras se encontram e um diz para o outro: -“ Comprei um carro novo!” E o amigo responde: - “Legal, quero ver!” Daí, o primeiro retruca: -“Então, passa lá em casa. O carro fica o tempo todo na garagem, não dá mais para sair na rua com esse trânsito...”
O que está acontecendo com o chamado automóvel no Brasil e no resto do mundo também não tem a menor graça. Outro dia, o presidente Lula deu mais uma de suas entrevistas patrióticas, todo orgulhoso com os números da Anfavea. Ele estava extasiado com a estúpida produção desenfreada de automóveis brasileiros nos últimos anos neste país, como diz ele. Extasiados (e milionários) estão também os donos das concessionárias, que agora vendem carros com oito anos para se pagar. Quem não quer essa moleza? Ano passado, incomodado com a quantidade crescente de carros nas ruas de Belo Horizonte, fiz, por conta própria, uma pesquisa ambiental. Levantei no Detran-MG o número de carros novos emplacados em 2007. Depois, pacientemente e com o auxílio da internet, calculei a área média dos respectivos veículos automotores – ou seja: de acordo com o modelo, cheguei ao tamanho que cada carro ocupa efetivamente em metros quadrados. Aí, foi fácil: multipliquei de novo e obtive o espaço físico real que nossa cidade perdeu para os automóveis em 2007. Rua não estica. E carro ocupa espaço. Portanto, se colocássemos os carros novos lado a lado e medíssemos esta área... Sabe quanto daria? O equivalente a 50 estádios Mineirões, mais ou menos. É mole? Fico pensando então quando abrirem as portas das importações para os carros super-populares, como os Tatas indianos ou os Shanas (desculpem, senhoras, mas o nome é este mesmo) chineses – aqueles carrinhos básicos que custam o preço de uma moto. Caso aconteça, pretendo me mudar para o alto de algum morro no interior de Roraima e ficar de lá, olhando o caos aos meus pés.
O fato é que o transporte individual, do jeito que o conhecemos, está com seus dias contados. Os sinais alarmantes são evidentes e a eles se somam a burrice e a incompetência dos órgãos governamentais de trânsito, que continuam privilegiando o transporte individual, enquanto lançam campanhas publicitárias absolutamente inúteis, pregando o “bom convívio de carros e pedestres nas ruas”. É certo que, cedo ou tarde, chegaremos à paralisação total das cidades, etapa inevitável, porém indispensável para conscientizar definitivamente a grande massa de cidadãos-motoristas quanto à falência deste modelo de “desenvolvimento”.
Em alguns estados norte-americanos, como na Califórnia, começam a surgir experiências interessantes, tipo o car-sharing. Primeiro você entra para um grupo que possui um determinado número de carros – modelos escolhidos pelos critérios de funcionalidade, baixa emissão de poluentes, uso de energia alternativa, etc. Entrando para a turma e pagando uma taxa mensal, você tem direito a usar um dos carros quando precisar dele – para fazer seu supermercado, ou buscar o filho na escola, por exemplo – devolvendo-o a um estacionamento especial quando terminar. E pronto. Outros usarão o mesmo carro daí a pouco, para seus afazeres domésticos. Manutenção barata, carros sempre novinhos, seguros coletivos... Não é uma boa? O mais curioso é o testemunho dos adeptos do car-sharing. Quase todos comentam a estranha e agradável sensação de descobrirem que precisam de um carro muito menos do que estavam acostumados. Trocaram um plugue mental, começaram a andar mais a pé, de bicicleta, melhoraram a saúde, conheceram mais vizinhos, etc.
A idéia é criativa, econômica, inteligente e solidária – e ainda tem o mérito de remeter os automóveis de volta ao seu posto inicial de meio de transporte, e não de extensões de egos vaidosos, como acabou virando. Muita gente vai detestar essa mudança. E continuarão torcendo o nariz para propostas deste tipo, roendo-se de ódio sozinhos, dentro de seus carros - cada vez mais caros, maravilhosos e inúteis, atolados em congestionamentos monumentais, tentando voltar para casa às oito e meia da noite. |